Passaram mais de cento e trinta anos desde que, em Chicago, trabalhadores anónimos enfrentaram a repressão, o desemprego e a fome para conquistar aquilo que hoje consideramos básico, como a jornada limitada, descanso, salário justo e dignidade. O Primeiro de Maio nasceu desse sacrifício — de vidas interrompidas para que outras pudessem viver com direitos.
Mas a história ensina-nos uma verdade desconfortável: nenhuma conquista é definitiva. E, apesar das leis laborais e das constituições que proclamam proteção e igualdade, a exploração assume novas formas, mais subtis, mais burocráticas, mais silenciosas. Hoje, como ontem, o trabalhador continua a ser visto, demasiadas vezes, como um custo a reduzir e não como uma parte que cria valor, devendo ser protegido e valorizado.
Entre todas as classes profissionais, os professores são certamente o exemplo mais evidente deste paradigma. A escola é o espaço onde se constrói o futuro coletivo. É ali que se formam cidadãos, profissionais, criadores e pensadores. No entanto, os docentes, quem sustenta esse processo, veem-se confrontados com carreiras congeladas ou distorcidas, salários que não acompanham a responsabilidade social da função, horários que ultrapassam largamente o que está escrito, burocracia que asfixia, instabilidade que desmotiva, e sobretudo uma crescente desvalorização pública que corrói a autoestima profissional. É um paradoxo civilizacional, a sociedade exige mais da escola, mas oferece menos aos professores.
Vivemos um período particularmente sensível. As negociações em torno do Estatuto da Carreira Docente e as alterações previstas às leis laborais colocam-nos perante um risco real: o retrocesso de direitos conquistados ao longo de décadas. Há sinais preocupantes: flexibilizações que podem fragilizar vínculos; mecanismos subjetivos de avaliação que ignoram a realidade das escolas; propostas que desconsideram o desgaste físico e emocional da profissão; e uma visão tecnocrática que reduz o professor a uma peça substituível numa engrenagem económica.
Tudo isto, em nome de interesses indefinidos, frequentemente apresentados como inevitáveis, modernos ou eficientes — mas que, na prática, podem abrir caminho a um novo obscurantismo social, onde o professor perde voz, autonomia e dignidade.
É preciso dizê-lo com clareza: a educação não é um setor produtivo qualquer. Não se mede em lucros trimestrais, nem se gere com a lógica fria da rentabilidade imediata. A classe docente garante a coesão social, combate desigualdades, sustenta a democracia e contribui diretamente para o progresso científico, cultural e económico.
Tratar os professores como meros executores, facilmente substituíveis, é não só injusto — é estrategicamente desastroso para o país.
Nós sabemos que a dignidade não se mendiga, conquista-se. E conquista-se com união, com firmeza, com participação informada e com a consciência de que cada direito retirado hoje será uma perda sentida por toda a sociedade amanhã.
O SPLIU, enquanto estrutura sindical independente e comprometida com a defesa dos professores, reafirma que:
não aceitará retrocessos;
não permitirá que a carreira docente seja desfigurada;
e não deixará que a escola pública seja fragilizada por decisões que ignoram quem nela trabalha todos os dias.
A luta do SPLIU não é apenas pelos professores. É pela educação. É pelo futuro. É pela própria ideia de civilização que herdámos daqueles que, no Primeiro de Maio, ousaram dizer basta.
Lisboa, 1 de maio de 2026
A Direção Nacional